DE OLHO NA SAÚDE
Pelo direito ao parto normal
Entrevista: Dra. Jane Lucena, obstetra da Norclínicas Intermédica
O excesso de cesarianas no Brasil é um problema grave, que está na mira das autoridades do setor de saúde. Para a médica Jane Lucena, obstetra da Norclínicas, esse abuso é resultado de uma conjunção de fatores, agravados, principalmente, pela desinformação das mães sobre os riscos do parto cesariano e os benefícios do parto normal. “O parto natural é um direito que toda mulher deve tentar exercer”, defende. Nesta entrevista, a médica fala mais sobre o assunto.
O número de cesarianas no Brasil é um dos mais altos do mundo. A que a sra. atribui isso?
Vários fatores contribuem para o excesso de cesarianas no Brasil. Entre eles, podemos destacar a questão cultural. Há uma grande desinformação sobre os riscos de um parto cirúrgico, nos casos em que não há uma indicação precisa. E também uma série de mitos sobre o parto normal. Um dos principais é a dor e o sofrimento da mãe nos casos de parto normal, o que não acontece se o processo for bem conduzido. Além disso, há a falta de compromisso ético de alguns profissionais durante a indicação dos partos operatórios.
Quais os casos em que a cesariana é realmente indicada?
A cesariana pode ser feita de urgência, nos casos em que há sofrimento do feto, ou de forma programada, em casos em que houver, por exemplo, desproporção entre a cabeça do bebê e a bacia materna, e nos casos em que houver indicação médica.
Quais as principais vantagens do parto normal?
São inúmeras, tanto para o bebê como para a mãe. O trabalho de parto tem uma enorme importância para a adaptação e funcionamento do coração e dos pulmões do bebê. As contrações do útero liberam substâncias que auxiliam o desenvolvimento do pulmão e estimulam os movimentos de sucção do bebê, facilitando o sucesso da amamentação. Muitas vezes, a data da cesariana é definida levando em conta outras conveniências, que não a melhor data para o bebê. Com isso, aumenta o risco de nascimentos de prematuros, de bebês cujos pulmões ainda não estão plenamente formados. Para a mãe, os benefícios também são enormes, como a recuperação mais rápida, com menor tempo de internamento, risco reduzido de perdas sanguíneas e de infecções, entre outros.
Quais os riscos de se optar por uma cesariana quando não há indicação médica para isso?
São imensos. Além dos riscos inerentes a qualquer procedimento operatório, como choques anafiláticos e infecções, há também o risco da prematuridade e/ou desconforto respiratório para a criança.
Existem vários mitos que cercam o parto normal. Que causaria muita dor, flacidez, caimento da bexiga. O que é verdade e o que é desinformação?
A maior parte dos mitos é, na verdade, desinformação. O parto normal bem assistido não causa nenhum dano à saúde da mulher. Quanto à dor, hoje a medicina já dispõe da analgesia do parto, um tipo de anestesia que pode ser feita para aliviar a dor, se ela for muito intensa, no momento do nascimento.
Quem faz uma cesariana pode ter o parto seguinte normal?
Após o primeiro parto cesariano, o seguinte poderá, sim, ser parto normal. É bom lembrar que o intervalo entre os partos deve obedecer ao prazo mínimo de dois anos.
A mulher que opta pelo parto natural deve seguir alguma preparação especial durante a gravidez?
É fundamental conhecer a evolução natural da gestação, praticar exercícios de relaxamento e preparar convenientemente a musculatura por meio de exercícios adequados para esta fase especial da vida. A opção de pelo menos tentar o parto natural é um direito que, em minha opinião, toda mulher deve exercer.
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